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A nova vantagem competitiva do jurídico não está só na técnica. Está na combinação entre hard skills, soft skills e IA.

Gabriel Costa

Gabriel Costa

Abril 17, 2026 · 6 min

Durante muito tempo, o diferencial do jurídico parecia simples: quem dominava mais a técnica saía na frente. E a técnica continua indispensável. Ninguém constrói boa decisão, bom contrato, boa tese ou boa estratégia sem base jurídica sólida. O ponto é que isso, sozinho, já não sustenta vantagem competitiva por muito tempo. O mercado mudou, a expectativa do cliente mudou e a forma como o valor do jurídico é percebido também mudou. Hoje, o diferencial não nasce só da profundidade técnica. Ele nasce da combinação entre hard skills, soft skills e fluência no uso de IA.¹

Esse ponto fica mais claro quando a conversa sobe de nível. Em 2026, a Thomson Reuters mostrou um descolamento relevante entre a visão dos GCs e a visão do restante do C-level sobre o valor do jurídico: 86% dos GCs disseram que a área jurídica é uma contribuição significativa para o sucesso do negócio, mas só 17% do restante do C-suite concordou com isso.² A mensagem aí é importante: não basta o jurídico ser tecnicamente bom. Ele precisa transformar competência em impacto visível para o negócio.²

É por isso que hard skill, isoladamente, virou pré-requisito, não diferencial. Hard skill continua sendo tudo aquilo que sustenta a entrega jurídica: leitura técnica, interpretação normativa, estruturação contratual, visão regulatória, raciocínio jurídico, consistência na análise e domínio de risco. Sem isso, não existe trabalho jurídico sério. Mas, a partir daqui, começa a diferença entre quem só entrega jurídico e quem realmente gera valor. Porque a técnica resolve o "o que diz o Direito", mas nem sempre resolve, sozinha, "o que o negócio precisa decidir agora".²

É aqui que entram as soft skills. E não como enfeite de currículo. Entram como capacidade real de fazer o jurídico sair do papel e entrar na mesa de decisão. Comunicação clara, adaptabilidade, curiosidade, liderança, colaboração e leitura de negócio deixaram de ser atributos acessórios. A própria Thomson Reuters vem destacando que, para os profissionais mais jovens, habilidades como adaptabilidade, criatividade, liderança, curiosidade e fluência tecnológica ganham peso justamente porque o trabalho deixou de ser medido só por volume de produção e passou a ser medido pela capacidade de usar todos os recursos disponíveis para gerar melhor resultado.³

No jurídico corporativo, isso fica ainda mais evidente. Outro material da Thomson Reuters chama atenção para um ponto simples, mas muito forte: o jurídico precisa aprender a se comunicar pela lente do negócio. Em vez de falar só em risco, processo ou opinião legal, precisa mostrar como acelera venda, viabiliza operação, protege receita, reduz atrito e ajuda a empresa a decidir melhor. Quando isso não aparece, o valor do jurídico continua invisível, mesmo quando o trabalho é tecnicamente ótimo.⁴

Só que tem uma terceira camada que mudou esse jogo de vez: a IA.

E aqui, para mim, está a virada mais importante. A IA não substituiu a técnica. Também não substituiu relacionamento, julgamento ou comunicação. O que ela fez foi mudar o peso relativo de cada competência. Porque, quando a tecnologia acelera pesquisa, organização de informação, comparação de documentos, estruturação inicial de texto e outras tarefas repetitivas, o valor do profissional deixa de estar só na execução. Ele passa a estar muito mais na qualidade do filtro, da decisão, da priorização e da leitura estratégica.⁴

Por isso, o advogado que tende a ganhar espaço agora não é o que sabe só Direito, nem o que sabe só usar ferramenta. É o que junta as duas coisas e ainda consegue traduzir isso em entrega de negócio. A Wolters Kluwer mostrou em 2026 que 75% dos departamentos jurídicos corporativos e 66% dos escritórios já consideram expertise tecnológica importante ou muito importante. O mesmo levantamento mostra que oportunidades de desenvolvimento profissional (69%) e investimento em tecnologias jurídicas avançadas (66%) já pesam diretamente em atração e retenção de talentos.⁵ Isso mostra que fluência tecnológica deixou de ser um "plus". Virou parte da base competitiva.⁵

Mas tem um cuidado importante aqui: fluência em IA não é a mesma coisa que saber abrir uma ferramenta e pedir um resumo. A própria Thomson Reuters faz hoje uma distinção relevante entre alfabetização em IA e fluência em IA. Uma coisa é conhecer o básico. Outra é saber usar essa tecnologia de forma estratégica, com critério, com expectativa clara, com leitura de risco e com conexão com o objetivo de negócio. É essa segunda camada que começa a separar operação madura de uso improvisado.⁴

  • Hard skill sem soft skill tende a virar um jurídico tecnicamente bom, mas pouco influente.
  • Soft skill sem hard skill vira discurso sem sustentação.
  • IA sem as duas coisas vira aceleração sem critério.

O que realmente muda o jogo é a soma: base técnica forte, capacidade de diálogo com o negócio e uso inteligente da tecnologia para ganhar escala sem perder qualidade.

E tem mais um ponto que o mercado já começou a deixar claro: cliente não quer mais só excelência jurídica no sentido tradicional. Segundo a Wolters Kluwer, 54% dos clientes já esperam que seus parceiros jurídicos sejam competentes em IA e usem essa tecnologia com responsabilidade.⁶ Ou seja, a expectativa externa também mudou. Não basta ser tecnicamente confiável. É preciso ser tecnicamente confiável, eficiente, transparente e maduro no uso de tecnologia.⁶

No fundo, a nova vantagem competitiva do jurídico não está em escolher entre técnica, comportamento ou tecnologia. Ela está em combinar os três.

Porque o mercado continua premiando quem conhece o Direito. Mas começa a premiar ainda mais quem consegue transformar esse conhecimento em decisão melhor, comunicação melhor e execução mais inteligente.

É aí que a técnica deixa de ser só profundidade e passa a virar impacto.

Referências

[1] Thomson Reuters, 2026 State of the Corporate Law Department Report

https://www.thomsonreuters.com/en-us/posts/corporates/state-of-the-corporate-law-department-report-2026/

[2] Thomson Reuters, 2026 State of the Corporate Law Department Report

https://www.thomsonreuters.com/en-us/posts/corporates/state-of-the-corporate-law-department-report-2026/

[3] Thomson Reuters, The Must-Have Skill for First Year Legal Associates: Adaptability

https://www.thomsonreuters.com/en-us/posts/innovation/the-must-have-skill-for-first-year-legal-associates-adaptability/

[4] Thomson Reuters, Relationship-building and AI fluency key to closing visibility gap, new report shows

https://www.thomsonreuters.com/en-us/posts/corporates/closing-ai-visibility-gap/

[5] Wolters Kluwer, Legal AI Training & Future-Ready Talent Development

https://www.wolterskluwer.com/en-gb/expert-insights/future-ready-legal-talent-ai-skills

[6] Wolters Kluwer, Legal industry leaders explore earning and maintaining trust in an AI-driven world

https://www.wolterskluwer.com/en/expert-insights/legal-industry-leaders-explore-earning-and-maintaining-trust-in-ai-driven-world

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