Durante muito tempo, o diferencial do jurídico parecia simples: quem dominava mais a técnica saía na frente. E a técnica continua indispensável. Ninguém constrói boa decisão, bom contrato, boa tese ou boa estratégia sem base jurídica sólida. O ponto é que isso, sozinho, já não sustenta vantagem competitiva por muito tempo. O mercado mudou, a expectativa do cliente mudou e a forma como o valor do jurídico é percebido também mudou. Hoje, o diferencial não nasce só da profundidade técnica. Ele nasce da combinação entre hard skills, soft skills e fluência no uso de IA.¹
Esse ponto fica mais claro quando a conversa sobe de nível. Em 2026, a Thomson Reuters mostrou um descolamento relevante entre a visão dos GCs e a visão do restante do C-level sobre o valor do jurídico: 86% dos GCs disseram que a área jurídica é uma contribuição significativa para o sucesso do negócio, mas só 17% do restante do C-suite concordou com isso.² A mensagem aí é importante: não basta o jurídico ser tecnicamente bom. Ele precisa transformar competência em impacto visível para o negócio.²
É por isso que hard skill, isoladamente, virou pré-requisito, não diferencial. Hard skill continua sendo tudo aquilo que sustenta a entrega jurídica: leitura técnica, interpretação normativa, estruturação contratual, visão regulatória, raciocínio jurídico, consistência na análise e domínio de risco. Sem isso, não existe trabalho jurídico sério. Mas, a partir daqui, começa a diferença entre quem só entrega jurídico e quem realmente gera valor. Porque a técnica resolve o "o que diz o Direito", mas nem sempre resolve, sozinha, "o que o negócio precisa decidir agora".²
É aqui que entram as soft skills. E não como enfeite de currículo. Entram como capacidade real de fazer o jurídico sair do papel e entrar na mesa de decisão. Comunicação clara, adaptabilidade, curiosidade, liderança, colaboração e leitura de negócio deixaram de ser atributos acessórios. A própria Thomson Reuters vem destacando que, para os profissionais mais jovens, habilidades como adaptabilidade, criatividade, liderança, curiosidade e fluência tecnológica ganham peso justamente porque o trabalho deixou de ser medido só por volume de produção e passou a ser medido pela capacidade de usar todos os recursos disponíveis para gerar melhor resultado.³
No jurídico corporativo, isso fica ainda mais evidente. Outro material da Thomson Reuters chama atenção para um ponto simples, mas muito forte: o jurídico precisa aprender a se comunicar pela lente do negócio. Em vez de falar só em risco, processo ou opinião legal, precisa mostrar como acelera venda, viabiliza operação, protege receita, reduz atrito e ajuda a empresa a decidir melhor. Quando isso não aparece, o valor do jurídico continua invisível, mesmo quando o trabalho é tecnicamente ótimo.⁴
Só que tem uma terceira camada que mudou esse jogo de vez: a IA.
E aqui, para mim, está a virada mais importante. A IA não substituiu a técnica. Também não substituiu relacionamento, julgamento ou comunicação. O que ela fez foi mudar o peso relativo de cada competência. Porque, quando a tecnologia acelera pesquisa, organização de informação, comparação de documentos, estruturação inicial de texto e outras tarefas repetitivas, o valor do profissional deixa de estar só na execução. Ele passa a estar muito mais na qualidade do filtro, da decisão, da priorização e da leitura estratégica.⁴
Por isso, o advogado que tende a ganhar espaço agora não é o que sabe só Direito, nem o que sabe só usar ferramenta. É o que junta as duas coisas e ainda consegue traduzir isso em entrega de negócio. A Wolters Kluwer mostrou em 2026 que 75% dos departamentos jurídicos corporativos e 66% dos escritórios já consideram expertise tecnológica importante ou muito importante. O mesmo levantamento mostra que oportunidades de desenvolvimento profissional (69%) e investimento em tecnologias jurídicas avançadas (66%) já pesam diretamente em atração e retenção de talentos.⁵ Isso mostra que fluência tecnológica deixou de ser um "plus". Virou parte da base competitiva.⁵
Mas tem um cuidado importante aqui: fluência em IA não é a mesma coisa que saber abrir uma ferramenta e pedir um resumo. A própria Thomson Reuters faz hoje uma distinção relevante entre alfabetização em IA e fluência em IA. Uma coisa é conhecer o básico. Outra é saber usar essa tecnologia de forma estratégica, com critério, com expectativa clara, com leitura de risco e com conexão com o objetivo de negócio. É essa segunda camada que começa a separar operação madura de uso improvisado.⁴
- Hard skill sem soft skill tende a virar um jurídico tecnicamente bom, mas pouco influente.
- Soft skill sem hard skill vira discurso sem sustentação.
- IA sem as duas coisas vira aceleração sem critério.
O que realmente muda o jogo é a soma: base técnica forte, capacidade de diálogo com o negócio e uso inteligente da tecnologia para ganhar escala sem perder qualidade.
E tem mais um ponto que o mercado já começou a deixar claro: cliente não quer mais só excelência jurídica no sentido tradicional. Segundo a Wolters Kluwer, 54% dos clientes já esperam que seus parceiros jurídicos sejam competentes em IA e usem essa tecnologia com responsabilidade.⁶ Ou seja, a expectativa externa também mudou. Não basta ser tecnicamente confiável. É preciso ser tecnicamente confiável, eficiente, transparente e maduro no uso de tecnologia.⁶
No fundo, a nova vantagem competitiva do jurídico não está em escolher entre técnica, comportamento ou tecnologia. Ela está em combinar os três.
Porque o mercado continua premiando quem conhece o Direito. Mas começa a premiar ainda mais quem consegue transformar esse conhecimento em decisão melhor, comunicação melhor e execução mais inteligente.
É aí que a técnica deixa de ser só profundidade e passa a virar impacto.
Referências
[1] Thomson Reuters, 2026 State of the Corporate Law Department Report
[2] Thomson Reuters, 2026 State of the Corporate Law Department Report
[3] Thomson Reuters, The Must-Have Skill for First Year Legal Associates: Adaptability
[4] Thomson Reuters, Relationship-building and AI fluency key to closing visibility gap, new report shows
https://www.thomsonreuters.com/en-us/posts/corporates/closing-ai-visibility-gap/
[5] Wolters Kluwer, Legal AI Training & Future-Ready Talent Development
https://www.wolterskluwer.com/en-gb/expert-insights/future-ready-legal-talent-ai-skills
[6] Wolters Kluwer, Legal industry leaders explore earning and maintaining trust in an AI-driven world
